quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Meu melhor amigo (parte 3)


Como eu disse, fazíamos parte de uma mesma moeda, diferentes, mas sem antagonismos e tínhamos assuntos pra toda hora, muitas vezes, em hora de repouso, ficávamos com a toalha de mão nos rostos, fazendo que dormissem e continuávamos cochichando, posto que fossem vizinhos de cama.
Algumas vezes virávamos um trio, quando batíamos nas latas penduradas na tela que dividia os pátios, fazíamos o som e o André cantava os sambas mais lindos desse mundo.
Em sala de aula, desde o jardim de infância, nossa companheira era a Marta Yoshie, até que tentaram nos separar dela, mas ela ficou muito triste, a ponto do pai dela implorar que nos deixassem junto, era um trio estranho aquele, numa sexta-feira, ao final da aula, o pai dela nos levou pra um passeio, ela ia completar nove anos no domingo, passamos esses dias na casa dela e ainda que fosse no Cambuci, era uma réplica das casas do Japão, com jardins e santuários.
Avisados com antecedência, os convidados trouxeram presentes pra aniversariante e pros amiguinhos dela, que coincidentemente, aniversariavam na mesma semana.
Mas, via de regra, desde quando chegamos não nos apartamos mais e a dupla era chamada pelo nome e o sobrenome, geralmente quem aprontava era ele, mas eu era o maior, meu nome vinha em primeiro na hora do grito:
_NILTON E FERNANDINHO! E, lá vinha o castigo, metade pra cada.
Eu não tinha visitas, a mãe dele trazia "bode" pra dois, no caso de recomendações, ela fazia pra mim, pois sabia que ele fatalmente esqueceria.
Um dia, com a desculpa de resgatar uma bola, subimos naquela laje que tem, entre a sala de aula e o pátio, como a moça, ocupada com os outros meninos se distraiu, fomos andando, voltando os pátios agachados, chegamos ao Menino Jesus, havia ali duas linhas de arames farpados, com facilidade pulamos pra rua, fizemos a volta no quarteirão e chegamos à portaria.
Todo mundo foi chamado, a Olga foi acusada de ser negligente e se defendia de canto de olhos dava pra sentir que ela queria nos esganar, a madre Márcia queria o pescoço de alguém, menos os nossos, a madre Da Glória já nos havia presenteado com seus famosos beliscões, os meninos foram trazidos pela Olga e nos olhavam com olhos de cumplicidade e admiração e com certa pena, já que se se falava em desinternação ou transferência.
De cabeças baixas, esperamos e torcemos por um milagre, de frente pro Fernandinho, pude ver que, a rampa estava iluminada de sol, um vento fazia o véu de a madre Brasil esvoaçar, e não tive mais medo de nada, ela entrou no saguão e o saguão se iluminou, em vezes, dava a impressão que ela era acompanhada de um batalhão de anjos.
Caminhou em nossa direção, ficou no meio de nós e pousou as mãos em nossas cabeças e, com a naturalidade de quem educa disse:
_É logico que eles ultrapassaram os limites, mas voltaram. Se pularam é por que estava fácil, se fossem outros meninos poderia acontecer o pior.
E resolveu tudo, o Juventino consertou a falha na segurança e, isso não evitou o castigo, ficamos sem ir ao Zoológico.

Mas, quem disse que a dupla não se divertiu na Casa de Infância vazia?

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